Quem foi o primeiro peregrino precursor do Caminho de Santiago?

19 fevereiro, 2025

O primeiro peregrino conhecido que realizou o Caminho de Santiago foi Apostol Santiago. A tradição sustenta que foi o apóstolo quem pregou na península ibérica e que, após sua morte, seu corpo foi trasladado de barco até a Galícia, onde foi descoberta sua tumba no século IX. Este evento marcou o início do auge da peregrinação a Santiago de Compostela, tornando a cidade um dos destinos de peregrinação mais importantes do cristianismo medieval. Embora não se possa identificar um único "primeiro peregrino", a descoberta da tumba de Santiago é o que deu início à tradição de peregrinar até seu sepulcro.

Una estatua de un antiguo peregrino

Atualmente, Santiago de Compostela recebe centenas de milhares de peregrinos a cada ano, mesmo apesar de como a pandemia possa ter afetado o turismo e a peregrinação. Mas nem sempre foi assim, pois em muitos momentos da História esteve à beira da desaparecimento. Mas além de estatísticas e quantidades, uma das perguntas mais habituais entre nossos peregrinos é a seguinte: quem foi o primeiro peregrino do Caminho de Santiago? Há quem diga que o primeiro peregrino foi o próprio Santiago, mas isso não faz muito sentido, pois com a peregrinação é a ele que se busca.

Para esta pergunta não existe resposta segura nem concreta, já que existe muita informação baseada em lendas, ideias preconcebidas ou tradições, mas nada tangível que corrobore exatamente quem foi. A seguir, apresentamos algumas das hipóteses que os historiadores especialistas no Caminho de Santiago consideram.

O rei Alfonso II, a teoria mais difundida

José Miguel Andrade, especialista no Caminho e professor de História Medieval da Universidade de Santiago de Compostela, afirma que “a tradição conta que o bispo Teodomiro informa ao rei Alfonso II de que foi encontrado o corpo de Santiago e o rei vem em peregrinação por volta do ano 820, tornando-se o primeiro peregrino”, com o fim de corroborar tal descoberta do prelado. Essa viagem teria dado origem, além disso, ao surgimento do primeiro Caminho, o conhecido como Caminho de Santiago Primitivo a partir da atual Oviedo. Isso se deve ao fato de que a capital asturiana era o lugar onde se encontrava a residência real, sim, mas surge um primeiro problema, que é que não existe nenhum documento contemporâneo aos fatos que valide esta teoria: nem da realização da rota e nem do ponto de partida caso tenha sido empreendido a viagem, já que essa travessia não é mencionada até dois séculos e meio depois, na Compostela do século XI.

Estatua de Alfonso II en Oviedo

Estátua de Alfonso II em Oviedo

Além disso, se tivermos em conta a vida de um rei na época, nada nos pode assegurar que o monarca, caso tivesse peregrinado a Santiago de Compostela, o tivesse feito a partir de Oviedo e não de qualquer outro ponto do reino. De fato, se isso for verdade, o mais provável é que o Caminho empreendido não seja o mesmo que, séculos depois, foi traçado para unir Oviedo com Santiago de Compostela, uma vez que é pouco provável que tenha sido realizado uma viagem tão direta sobre o mapa.

Por que Alfonso II? É importante ter em conta que a primeira referência documental em que se fala da igreja de Santiago de Compostela é uma doação do próprio Alfonso II, mas isso não certifica de forma alguma que seja ele e não outro o primeiro viajante que chegou a ver os restos do Apóstolo. “A tradição diz isso, mas não há nenhuma prova documental que o mantenha. Se foi o primeiro peregrino ou não é completamente impossível de saber”, afirma Andrade, dando muita importância à evidência documental.

Um cego alemão, a primeira evidência peregrina documentada

Como evidência mais antiga, existe constância de um clérigo peregrino alemão que no ano 930 diz ter viajado a Santiago de Compostela. Talvez menos verossímil seja o que escreve nesse documento, pois nele narra, após ter retornado para casa, como foi sua viagem a Compostela e como, graças à sua peregrinação, o Apóstolo Santiago o curou da cegueira. Nesse sentido, o historiador alemão Klaus Herbers assegura que na época “Santiago era conhecido na Alemanha como centro de peregrinação”.

A peregrinação literária do bispo Godescalco de Le Puy

A história de Godescalco é documentada e curiosa. Ele, um bispo francês de Le Puy en Velay, onde nasce a atual Vía Podiense, peregrinou no ano de 951 até a Sede Compostelana com um séquito de muitos peregrinos. Em seu caminho para Santiago, sabe-se que passou por Pamplona e Logroño, onde curiosamente desviou-se cerca de 15 quilômetros para o sul, com destino a um novo mosteiro em Albelda (La Rioja), localidade tomada dos muçulmanos por Ordoño I, rei de Astúrias, no ano de 924, poucos anos antes.

Qual o motivo? Solicitar uma cópia de um manuscrito de São Ildefonso, bispo de Toledo do século VIII sobre a Virgem, do qual sua diocese carecia, de conhecida devoção mariana e em busca de textos litúrgicos marianos. A cópia, que hoje se conserva na Biblioteca Nacional da França (Paris) com o restante de suas partes, chama-se Manuscrito Godescalco, como aponta Roger Reynolds, do Instituto Pontifício de Estudos Medievais e peregrino a Santiago de Compostela em três ocasiões (mais recentes no tempo).

Una imágen de Godescalco de Puy

Uma imagem de Godescalco de Puy

E é aí, no próprio prólogo do manuscrito, onde fica o registro dessa solicitação e a constância de sua viagem, já que nele se expõe que ele a solicita em seu caminho de ida a Santiago, para recolher na volta, deixando patente, desta vez sim, a aventura. Portanto, estamos diante de o primeiro peregrino conhecido cujo viagem foi documentada no momento em que a realizava, o que não quer dizer também que se trate do primeiro peregrino.

O bom Godescalco afirma que nasceu no dia em que o Apóstolo ascendeu aos céus, 25 de julho, quando além disso ele mesmo foi nomeado bispo. Vê-se que era muito devoto também do Filho do Trovão, e levou um bonito souvenir de sua visita ao Caminho de Santiago.

Talvez Carlos Magno?

Merece uma menção especial o imperador Carlo Magno. Não há registros de que ele tenha chegado à mitra compostelana, mas sua história é mais uma entre tantas em que os documentos (posteriores) o situam no Caminho, neste caso como criador do mesmo.

Por que tais fatos são mencionados no Códice Calixtino do século XII, três séculos após sua morte? Provavelmente, e como era habitual na época, com a intenção de vincular a descoberta dos restos do Apóstolo à monarquia para dar prestígio ao achado. Mas parece que a história é bastante improvável.

Continuaremos investigando, mas sempre com certezas documentais

A história do Caminho de Santiago e dos primeiros peregrinos à recém-descoberta Tumba do Apóstolo em Compostela, como por exemplo a mais difundida, a de Afonso II, “é uma história que está escrita dois séculos e meio após o acontecimento. Aparece em crônicas e textos da Compostela do século XI. Em função disso, não sabemos nada. Não sabemos sequer se Afonso II foi alguma vez a Compostela”, afirma a francesa Adeline Rucquoi, membro do Comitê de Especialistas do Caminho de Santiago.

Com tudo isso, podemos concluir que é difícil saber exatamente quem foi o primeiro peregrino do Caminho de Santiago, já que é difícil contrastar determinadas fontes. É provável que se trate de Afonso II? Sim, mas tão provável quanto improvável, pelo que será necessário dar espaço aos pesquisadores para que continuem trabalhando em esclarecer uma das grandes dúvidas da história jacobeia. Continuaremos peregrinando na história para encontrar as pegadas daqueles que começaram a forjar o Primeiro Itinerário Cultural Europeu, ¿nos acompanha?

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Rafael Sánchez López - Kaufmännischer Leiter - Agentur Viajes Camino de Santiago