Tomás, o hospitaleiro de Manjarín e o último templário
23 janeiro, 2026
Conheça a história de Tomás, o hospitaleiro de Manjarín, figura emblemática do Caminho de Santiago considerado por muitos como o último templário. O artigo revisita sua vida, seu legado na acolhida de peregrinos e o simbolismo que envolve este singular enclave do Caminho.
O Caminho de Santiago está um pouco mais triste. Na noite de 14 para 15 de janeiro de 2026 faleceu no Hospital de Ponferrada Tomás Martínez de Paz, mais conhecido por todos como Tomás de Manzarínou o último templário. Era um desses personagens que parecem saídos de um conto, mas que muitos peregrinos conheceram de verdade, ali em cima, no alto do Caminho Francês.
Este texto não é uma biografia completa nem um reportagem histórica. É, sobretudo, uma pequena homenagem para recordar quem era Tomás, o que fez pelos peregrinos e por que seu nome já faz parte da lenda do Caminho de Santiago.
Tomás de Manzarín
Uma luz no alto do Caminho Francês
Se você caminhou o Caminho Francês, talvez se lembre do trecho entre Foncebadón e El Acebo. É uma zona alta, de montanha, onde no inverno o vento sopra com força e a neve pode cobrir tudo. No meio dessa paisagem aparece Manzarín, uma pequena aldeia maragata quase vazia, situada a cerca de 1.500 metros de altitude, pouco depois da Cruz de Ferro.
Ali, desde 1993, Tomás levantou um refúgio muito especial para os peregrinos: o Refúgio Templário de Manzarín. Quando chegou, o lugar estava praticamente em ruínas. Com paciência, trabalho e uma fé profunda no Caminho, foi dando vida a esse recanto: primeiro um abrigo simples, depois um refúgio cheio de símbolos templários, bandeiras, cruzes vermelhas e um famoso poste de madeira com sinais para Santiago, Roma, Jerusalém e outros lugares sagrados do mundo.
Quem era Tomás de Manzarín
Tomás era um homem simples e duro ao mesmo tempo. Tinha sido soldado e sabia o que significava passar frio, fome e medo. Antes de se instalar em Manzarín, trabalhou durante anos na zona de Ponferrada. A vida foi se complicando e, como ele mesmo contava, sentia que tudo estava desmoronando. Então apareceu o Caminho.
Um dia chegou à aldeia abandonada de Manzarín e sentiu que aquele lugar o chamava. Decidiu ficar ali "como um guerreiro templário ao serviço dos peregrinos". Aprendeu o ofício de hospitalero no albergue Ave Fénix de Villafranca del Bierzo, onde descobriu como cuidar, ouvir e animar os caminhantes. A partir de então, dedicou toda a sua vida à acolhida.
Embora vivesse em León e fosse conhecido como maragato, Tomás tinha também um vínculo muito forte com Abarán e com a Região de Múrcia. Lá o consideravam um autêntico embaixador do povo: falava de Abarán aos peregrinos, participava em jornadas jacobeias e levava o nome de sua terra amiga por toda a rota. Para muitos murcianos, Tomás era "seu" hospitalero no Caminho.
Peregrinas chegando a Manzarín
Um refúgio templário no meio da névoa
O refúgio de Tomás não era um albergue moderno. Não tinha luxos: durante muito tempo não havia água corrente nem luz elétrica, e a energia chegava apenas de algumas placas solares. No interior, o chão era de terra ou cimento, as beliches eram simples e o frio era combatido com um aquecedor e muito café quente. Dormia-se "a donativo", ou seja, cada um deixava o que podia ou o que queria.
No entanto, o lugar estava cheio de magia. Tomás recebia os peregrinos com sua túnica branca e a cruz vermelha templária, tocava um sino quando via alguém chegando e oferecia uma cadeira, um caldo ou um simples copo de água. Muitos lembram como se sentavam junto ao fogo enquanto ele ouvia suas histórias, abençoava o Caminho à frente e lembrava que o importante não era o destino, mas o espírito com que caminhavam.
Cada dia, às onze da manhã, realizava uma oração pela paz. Era um pequeno rito em que misturava tradição templária, fé simples e um profundo desejo de fraternidade. Rezava com os peregrinos em diferentes línguas e pedia pela paz no mundo. Para muitos, aquele momento foi uma das lembranças mais emocionantes de toda a sua viagem.
Um templário a serviço dos peregrinos
A Tomás não interessava o turismo da moda nem o Caminho transformado em um parque temático. Defendia um Caminho de Santiago autêntico, mais espiritual do que turístico. Criticava os "refúgios de três estrelas" quando perdiam a simplicidade e tratavam o peregrino como um cliente qualquer. Em Manzarín tudo era diferente: lá não se ia ocupar uma cama, mas compartilhar uma experiência.
Sua relação com a Ordem do Templo ia muito além da fantasia. Nos anos noventa, impulsionou o Círculo Templário de Ponferrada e se via como um guardião moderno da rota. Não protegia o Caminho com espada e armadura, mas com hospitalidade, escuta e presença constante, inverno após inverno, quando mal passavam peregrinos e a neve cobria as montanhas.
Também foi uma ponte entre lugares. De Manzarín falava da Maragatería, de Ponferrada, da Região de Múrcia, de Abarán e de tantos lugares por onde havia passado. Seu refúgio era como uma pequena praça do mundo, onde se encontravam pessoas de muitos países, idades e religiões, unidas pelo mesmo desejo de chegar a Santiago.
Vista do refúgio de Tomás de Manzarín
Um legado que continua vivo a cada passo
Após seu falecimento, foi celebrado um funeral na basílica de La Encina, em Ponferrada, e a família anunciou que suas cinzas seriam espalhadas em Manzarín. É bonito pensar que, de algum modo, Tomás continuará acompanhando os peregrinos desde esse mesmo lugar onde decidiu viver e servir.
Hoje o refúgio templário está em silêncio, mas sua história continua viva. Sempre que alguém sobe em direção à Cruz de Ferro e se aproxima de Manzarín, pode imaginar o sino tocando, a fumaça saindo da cozinha e a figura de um homem barbudo, de túnica branca, abrindo a porta para oferecer algo quente e uma bênção simples.
Se algum dia você caminhar por lá, talvez queira parar um momento, olhar a paisagem e agradecer. Eu cheguei a conhecê-lo em 2022, fazendo o Caminho Francês, e tive a sorte de poder conversar com ele tomando seu café quente e receber seu carimbo e toda a sua humanidade. Obrigado Tomás pela sua hospitalidade e por nos lembrar que o Caminho de Santiago também é sobre cuidar dos outros. E por nos ensinar que, às vezes, um pequeno refúgio no meio da névoa pode se tornar um dos grandes tesouros do Caminho.
Bom Caminho, Tomás, e que a terra te seja leve. Seu espírito continuará caminhando conosco.