Nossos peregrinos revelam como o Caminho de Santiago transforma vidas
22 agosto, 2025
Uma pesquisa com mais de 5.000 peregrinos revela que o Caminho de Santiago é uma experiência diversificada, majoritariamente positiva e transformadora, motivada por turismo, desafio e desconexão, e recomendada quase unanimemente por aqueles que a vivem.
Leva séculos inspirando viajantes de todo o mundo e, segundo uma pesquisa recente elaborada por nós, o Caminho de Santiago continua a deixar uma marca profunda em quem o percorre. Mais de 5.000 peregrinos de diversas nacionalidades –predominantemente espanhóis, mas também de guatemaltecos a filipinos– compartilharam suas vivências.
Qual é o resultado? Um retrato caloroso e cheio de nuances do que significa percorrer uma rota jacobeia no pleno século XXI. Os dados falam de uma experiência majoritariamente positiva, enriquecedora e recomendada por quase todos, mas também revelam curiosidades sobre as diferentes rotas, as motivações que levam a iniciar a caminhada e as lições de vida que ficam após a peregrinação.

Peregrinos no Caminho
Peregrinos de todas as idades e cantos do mundo
O perfil dos participantes na pesquisa mostra uma comunidade diversa de cerca de 5.000 pessoas, unida pela paixão de caminhar em direção a Santiago. Mais de 3 em cada 5 entrevistados eram espanhóis, 70%, o que se traduz em algo mais de 3.600 peregrinos nacionais, acompanhados por um contingente internacional de mais de mil pessoas de mais de vinte nacionalidades distintas (com presença notável de latino-americanos de países como Argentina, México, Uruguai ou Venezuela, junto a europeus da Itália, Reino Unido, Alemanha, etc.). Essa mistura de origens reflete que o Caminho mantém seu apelo global, embora continue a ser especialmente querido dentro da Espanha.

Nacionalidade dos peregrinos entrevistados
No que se refere à idade, o Caminho parece atrair especialmente os adultos de meia-idade e mais velhos. Mais da metade dos entrevistados, um 50% longo, têm 55 anos ou mais, e outro 27% longo, estão na faixa de 45-54 anos. Ou seja, cerca de 78% dos peregrinos são maiores de 45. Longe de ser uma atividade apenas para jovens aventureiros, a peregrinação se consolida como uma experiência popular também entre pessoas próximas da aposentadoria ou já aposentadas, que têm tempo e vontade de viver essa aventura. Os grupos de 35-44 anos e 25-34 anos representam cada um cerca de 10% dos caminhantes, respectivamente, e apenas 2% dos participantes eram menores de 25 anos. Em outras palavras, há peregrinos de todas as idades, mas destacam-se os veteranos, demonstrando que nunca é tarde para calçar as botas e empreender o Caminho.

Idade dos peregrinos entrevistados
A participação por gênero foi muito equilibrada: aproximadamente 51% mulheres e 49% homens, em linha com a paridade que se observa também nos caminhos jacobeus. O Caminho parece ser igualmente atraente e inclusivo para peregrinas e peregrinos.

Peregrinos entrevistados segundo gênero
Outro dado interessante é a experiência prévia no Caminho que tinham os entrevistados. Mais da metade (cerca de 51%) já fez o Caminho pelo menos uma vez. Um grupo muito significativo, cerca de 33%, já repetiu a aventura com 2 a 3 Caminhos realizados, e um apaixonado 15% o havia feito mais de 3 vezes! Até mesmo alguns poucos, cerca de 1%, responderam que ainda não o haviam feito, mas estavam planejando, o que mostra a ilusão de futuros peregrinos. Isso indica que, para muitos, o Caminho de Santiago não é uma coisa de uma só vez: vicia. Aqueles que o experimentam costumam querer repetir, seja para reviver a magia, explorar rotas diferentes ou aprofundar seu crescimento pessoal. E é que são numerosos os veteranos que afirmam que cada Caminho é único, trazendo algo novo em cada peregrinação.

Quantas vezes você já fez o Caminho de Santiago?
O que motiva a caminhar centenas de quilômetros até Santiago?
Uma das perguntas-chave da pesquisa foi por que você decidiu fazer o Caminho de Santiago? As respostas revelam uma gama de motivações onde os elementos espirituais convivem com razões mais terrenas. Longe de haver uma única causa, muitos peregrinos apontaram várias motivações ao mesmo tempo, pintando uma imagem rica das forças que os colocaram em movimento.

Por que você decidiu fazer o Caminho de Santiago?
Como se observa, a motivação mais citada, por quase metade dos participantes (cerca de 47%), foi o desejo de desfrutar da viagem em si, ou seja, o turismo, a natureza e as paisagens do Caminho. De fato, são milhares os peregrinos que veem esta rota como uma oportunidade de conhecer vilarejos e pessoas, admirar a beleza rural da Espanha e mergulhar na natureza a um ritmo pausado. A segunda razão mais comum, mencionada por 43% dos entrevistados, aponta para uma necessidade de desconexão e cuidado da saúde mental. O Caminho oferece uma ruptura com a rotina diária, afastando-se do estresse do trabalho e da cidade, permitindo desconectar do mundo moderno para reconectar consigo mesmo. Este fator terapêutico –de caminhar, pensar, meditar– ganhou muita importância em tempos recentes, e muitos peregrinos falam do Caminho como um “reset” mental e emocional.
Muito perto no ranking (com 38% de respostas) aparece a motivação da superação pessoal e o desafio esportivo. Não deixa de ser uma travessia física de centenas de quilômetros, e para numerosos caminhantes representa um desafio que querem enfrentar para provar seus limites, melhorar sua forma física ou simplesmente demonstrar a si mesmos que são capazes de conseguir. “É um desafio pessoal”, comentam alguns, combinando às vezes esse desejo de desafio com o prazer esportivo de caminhar ou andar de bicicleta por longas distâncias.
Por outro lado, praticamente 1 em cada 3 peregrinos (32%) iniciou a rota movido por uma busca espiritual ou religiosa. Embora o aspecto espiritual continue sendo um pilar do Caminho (não à toa é uma peregrinação histórica em direção ao túmulo do Apóstolo), é notável que fica atrás de motivações mais mundanas, como o turismo, a desconexão ou o desafio físico. Isso reflete como o Caminho de Santiago hoje em dia transcende o puramente religioso: muitos o percorrem por motivos pessoais que podem incluir espiritualidade, mas não exclusivamente.

Peregrino em busca interior
Para alguns, a espiritualidade é central – falam de “buscar algo” em seu interior ou de cumprir promessas e votos religiosos – enquanto para outros o Caminho é mais uma experiência cultural, esportiva ou social. Em qualquer caso, essa dimensão transcendente continua presente para uma porção importante de peregrinos, mantendo viva a mística do Caminho.
Finalmente, em muito menor medida, cerca de 11% mencionou a recomendação de outras pessoas ou a tradição familiar como motivo principal. Ou seja, alguns poucos centenas de peregrinos conheceram o Caminho graças ao conselho de amigos ou familiares, ou seguem uma tradição (por exemplo, pais que o fizeram e incentivaram seus filhos a fazê-lo). Embora seja a opção menos citada, não deixa de ser significativa: o boca a boca e a fama do Caminho continuam atraindo gente nova, embora a maioria chegue por vontade própria em busca de algo pessoal.
Em resumo, as motivações combinam o externo (ver o mundo, fazer turismo, cumprir uma tradição) com o interno (buscar paz mental, desafios pessoais, crescimento espiritual). Muitos peregrinos apontaram um coquetel de razões: de fato, era comum que alguém marcasse duas ou três das categorias anteriores juntas. Por exemplo, turismo e natureza + desafio esportivo, ou desconexão + espiritualidade. Isso sugere que o Caminho satisfaz múltiplos anseios ao mesmo tempo: é viagem, é desafio, é retiro, tudo em um. Como comenta uma peregrina, “tinha vontade de viver a experiência e me encontrar, ao mesmo tempo que conhecer lugares novos”, combinando aventura exterior com exploração interior.
Uma experiência enriquecedora: sensações durante o Caminho
Uma vez em marcha, como os peregrinos descrevem sua experiência geral no Caminho de Santiago? Os resultados da pesquisa aqui são contundentes e reconfortantes. Praticamente todos viveram de forma positiva. Foi oferecida aos participantes uma série de palavras ou frases para caracterizar sua vivência, e eles podiam escolher múltiplas descrições. As mais escolhidas desenham um panorama muito entusiástico: a maioria encontrou no Caminho algo relaxante, enriquecedor, desafiador e transformador ao mesmo tempo.

Como você descreveria sua experiência no Caminho de Santiago?
A sensação mais disseminada é a de um Caminho “relaxante, de reconexão pessoal”, opção marcada por um pouco mais da metade dos peregrinos. Paradoxalmente, caminhar dezenas de quilômetros por dia não impediu que 51% sentisse a experiência como relaxante; ao contrário, a desconexão das preocupações cotidianas e o ritmo simples de etapa após etapa ajuda muitos a acalmar a mente. Essa reconexão consigo mesmo aparece como um dos grandes presentes do Caminho.
Em segundo lugar, 37% descreveu sua viagem como “espiritualmente enriquecedora”. Aqui novamente vemos que, além de religiões concretas, uma boa parte dos peregrinos encontra na rota uma nutrição para a alma: seja por meio da introspecção, das conversas profundas com outros caminhantes, das visitas a lugares sagrados ou simplesmente do tempo para a reflexão, o Caminho enriquece o espírito. Muitos falam de se sentir “renovados por dentro” ao chegar a Santiago.
Muito ligada a essa renovação interior está a ideia de que o Caminho é “transformador”. Quase um terço (32%) dos entrevistados usou precisamente essa palavra. Para eles, esta peregrinação significou um antes e um depois em suas vidas. Pode soar como uma frase feita, mas quando dezenas de pessoas te dizem “mudou minha vida”, começa-se a levar a sério. Seja pelas lições aprendidas, por um encontro fortuito, pela superação de dificuldades ou por ter descoberto uma força interior desconhecida, muitos concordam que o Caminho de Santiago transforma quem se abre à experiência. “Você volta sendo outra pessoa”, afirmam. E é que, para muitos, “o Caminho continua após terminar o Caminho”.

Peregrinos felizes após terminar seu Caminho de Santiago
Agora bem, ser espiritual e transformador não significa que tenha sido fácil. Um 35% também o descreveu como “desafiador a nível físico”. De fato, para um terço dos peregrinos, cada jornada implicou suor, cansaço e dores a superar. Mas quase todos mencionam esse aspecto de forma positiva: o esforço físico fez parte do encanto e da sensação de conquista. Essa dureza é o que torna a meta mais doce. “É duro, mas é possível”, dizem, orgulhosos de terem conquistado o desafio.
Outro aspecto que vários destacaram é o componente social e humano da aventura. Um 27% a qualificou como “muito social, cheia de conexões” com outros peregrinos. A imagem do caminhante solitário contemplando o nascer ou pôr do sol existe, sim, mas igualmente real é a camaradagem nos albergues, as conversas caminhando lado a lado com um desconhecido que acaba se tornando amigo, as risadas compartilhadas diante de uma mesa comunitária ao anoitecer. O Caminho propicia encontros inesquecíveis e amizades inesperadas. Mais de um comenta que as pessoas que conheceu pelo caminho foram quase tão importantes quanto o próprio destino de Santiago. “Cheguei sozinho e terminei cercado de amigos queridos”, resume um peregrino veterano.
Finalmente, outro 27% apontou que foi “uma grande experiência turística”. Esta expressão abrange o aspecto cultural, histórico e de descoberta próprio de viajar: degustar a gastronomia local em cada região, admirar monumentos centenários, aprender sobre as tradições de cada povo. O Caminho de Santiago é também uma viagem pela história da Espanha e da Europa, e muitos peregrinos valorizam essa faceta: não é apenas introspecção, também é aventura e descoberta do mundo. Nesse sentido, o Caminho combina o turismo com algo que poucas viagens podem oferecer: a satisfação de ter chegado por seus próprios pés.

A particularidade de uma viagem ao Caminho de Santiago é que são “férias em movimento”
Lições pessoais: o que o Caminho nos ensina
Além de qualificar a experiência, a pesquisa perguntou abertamente: o que você aprendeu sobre si mesmo/a ao fazer o Caminho?. Aqui, as respostas se tornam muito pessoais e emotivas. Embora cada uma seja única, ao lê-las em conjunto, certos temas universais se desenham.
Muitos peregrinos descobrem no Caminho uma força interior e resiliência que não sabiam que tinham. “Aprendi que sou mais forte do que pensava”, confessa um participante, refletindo um sentimento compartilhado após superar dificuldades que pareciam impossíveis no início. Outros mencionam ter desenvolvido paciência e tolerância: as longas jornadas e os imprevistos ensinam a “levar a vida com calma” e aceitar as coisas como vêm.
Vários destacam a lição da humildade e simplicidade. Ao caminhar com o essencial na mochila, dormindo em albergues e compartilhando com pessoas de todos os tipos, aprende-se a valorizar as coisas simples – um prato quente, um chuveiro, uma cama – e a desprender-se do superficial. “O Caminho te ensina o pouco que você precisa para ser feliz”, resume sabiamente um peregrino, que agora aplica essa filosofia minimalista à sua vida diária.

Esta frase, certamente travessa, guarda muita sabedoria peregrina
A capacidade de viver o presente é outro aprendizado frequente. Andar passo a passo, sem mais tarefa do que chegar à próxima aldeia, ajuda muitos a “aproveitar o momento” de forma plena, algo que talvez antes não conseguiam devido à pressa do dia a dia. “Aprendi a aproveitar o momento e a cuidar dos outros”, conta uma peregrina, sublinhando também o valor da solidariedade que experimentou na rota. E é que a bondade e generosidade das pessoas no Caminho deixa marca: desde o hospitaleiro que te recebe com um sorriso até o vizinho que te presenteia com figos de seu pomar, cada gesto ensina “que este mundo está cheio de pessoas boas”, como escreveu emocionado outro entrevistado.
Em resumo, o Caminho de Santiago, além de te levar a um destino geográfico, te leva a um encontro consigo mesmo. Cada peregrino extrai suas próprias lições: alguns voltam com mais fé em si mesmos, outros com novos amigos que já são família, muitos com o coração curado e todos com anedotas para toda a vida. Como costuma-se dizer entre caminhantes, o Caminho não termina em Santiago, suas ensinanças te acompanham muito depois.
As rotas: do Caminho mais emocional ao mais solitário
Nem todos os Caminhos de Santiago são iguais. Existem múltiplas rotas (Francês, Português, Primitivo, do Norte, Vía de la Plata, Inglês, entre outras) e cada uma tem seu caráter.
Qual rota fizeram ou farão?
À pergunta sobre qual rota fazer, vemos que o Caminho Francês se destaca claramente como a opção mais escolhida, com um 77% longo. Segue-se o Caminho Português, superando o 33%, e os Caminhos Primitivo e Inglês ultrapassam amplamente o 10%.

Qual rota do Caminho de Santiago você fez ou vai fazer?
Como é percebida cada rota?
Aos peregrinos que conheciam mais de uma rota, foi perguntada sua opinião sobre qual consideravam a mais emocional, a mais espiritual, a mais desafiadora fisicamente, a mais solitária e a mais social. As respostas foram diversas, mas com uma clara favorita emergindo em quase tudo: o Caminho Francês, a rota clássica por excelência, dominou em várias categorias.
- Rota mais emocional: A maioria dos entrevistados (um 53%) apontou o Caminho Francês como o mais emocional de todos. Esta rota, a mais tradicional e movimentada, parece tocar a fibra sensível de muita gente, provavelmente pela combinação de sua história, os numerosos marcos espirituais ao longo do percurso e a comunidade que se forma nela. Talvez, também porque costuma ser a primeira opção entre peregrinos iniciantes. Em segundo lugar, um 16% longo mencionou o Caminho Primitivo (uma rota mais isolada e paisagisticamente impactante) e quase 14% o Caminho Português como especialmente emotivos, mas ficaram longe da rota francesa em menções.

Na sua opinião, qual das rotas que você conhece é a mais emocional?
- Rota mais espiritual: Novamente o Caminho Francês liderou as respostas, com um longo 45%. Faz sentido, sendo a rota com mais igrejas, ermidas e tradição jacobeia enraizada; muitos peregrinos sentem no Francês uma atmosfera espiritual muito marcada. No entanto, o Caminho Português (19%) também obteve bastantes votos como rota espiritual, talvez pelo recolhimento de alguns de seus trechos ou pela devoção que Fátima gera em quem o liga. O Caminho Primitivo (16% longo) apareceu aqui também em terceiro lugar, respaldado por aqueles que valorizam sua autenticidade histórica (é a rota original do Rei Afonso II no século IX) e a solidão propícia para a reflexão.

Na sua opinião, qual das rotas que você conhece é a mais espiritual?
- Rota mais desafiadora fisicamente: Ao contrário do que se poderia supor, o Caminho Francês foi o mais mencionado (um 36%) como o de maior desafio físico. Isso pode se dever, assim como em casos anteriores, ao fato de ser o mais popular e muita gente só fez essa rota, percebendo na própria pele suas longas etapas (algumas de mais de 25-30 km) e obstáculos como a subida aos Pirineus ou a meseta interminável. No entanto, aqueles que experimentaram outras rotas dificilmente estariam de acordo: alguns entrevistados destacaram o Caminho Português (quase 19%), a dureza do Caminho Primitivo (16%, com sua orografia montanhosa) e o Caminho de Finisterre (a prolongação até a Costa da Morte) que com 12% soma quilômetros quando já se está cansado após chegar a Santiago, e até mesmo o Caminho do Norte (8%).

Na sua opinião, qual das rotas que você conhece é a mais desafiadora fisicamente?
- Rota mais solitária: Aqui houve uma pequena surpresa: muitos peregrinos, um pouco mais de 30%, nomearam o Caminho Português como a rota mais solitária. De qualquer forma, o conceito de “rota mais solitária” depende muito de quando se percorre: até mesmo o Caminho Francês, o mais movimentado, com quase 19%, pode ser solitário no inverno, enquanto o Português em pleno agosto está repleto. Mas em média, segundo nossa pesquisa, o Português foi percebido como o de ambiente mais tranquilo e com mais espaços para a solidão. Destacam-se também o Caminho Primitivo (um longo 14%), o Caminho Inglês (um longo 11%) e o Caminho de Finisterre (um 10%).

Na sua opinião, qual das rotas que você conhece é a mais solitária?
- Rota mais social: Neste ponto não houve dúvidas, e novamente, o Caminho Francês, com 92%, dominou a imensa maioria das menções. Praticamente todos os que responderam a esta pergunta apontaram que a rota francesa é a mais social de todas, e é fácil entender por quê. É a via mais frequentada, com mais albergues repletos de peregrinos noite após noite, mais oportunidades de conhecer pessoas de todos os lugares, e uma espécie de família do Caminho que vai se encontrando etapa após etapa. “No Francês você nunca caminha sozinho, a menos que queira”, costumam dizer. Outras rotas podem ter também seu bom ambiente (alguns mencionaram o Português ou o Inglês como bastante sociais em sua experiência), mas nada se compara ao burburinho cosmopolita do Caminho Francês na alta temporada. Para aqueles que buscam fazer amigos pelo Caminho, a rota francesa parece ser a aposta segura.

Na sua opinião, qual das rotas que você conhece é a mais social?
Uma aventura que quase todos recomendam
Depois de conhecer o perfil, os motivos e as vivências, cabia perguntar: recomendariam esses peregrinos o Caminho de Santiago a outros? Mais concretamente, consideram-no uma experiência transformadora que incentivariam a viver? A resposta foi um rotundo sim. Na pesquisa, foi solicitado que classificassem de 1 a 5 a probabilidade de recomendar o Caminho como uma experiência que muda a vida (1 significava “de forma alguma” e 5 “definitivamente”). Pois bem, aproximadamente 9 em cada 10 pessoas (88%) deram uma pontuação alta de 4 ou 5, e de fato 80% escolheu o 5, a máxima. Ou seja, a grande maioria definitivamente recomendaria o Caminho de Santiago aos demais por seu potencial transformador.

Você recomendaria o Caminho a outros como uma experiência transformadora?
1 (“De forma alguma”) a 5 (“Definitivamente”)
Essa unanimidade fala por si só. O Caminho penetra fundo em quem o completa, até o ponto de que se torna natural convidar outros a que o tentem. Muitos peregrinos se tornam embaixadores entusiastas da rota: contam suas experiências, incentivam seus amigos, familiares ou até desconhecidos a vivenciá-lo na própria pele. “Sim, faça isso, você não vai se arrepender” é a frase que resume esse sentimento. E não apenas o recomendam de palavra: lembremos que uma porcentagem importante repete a peregrinação múltiplas vezes. Quem viveu o Caminho geralmente quer que outros também o vivam, o que explica em parte o crescimento contínuo do número de peregrinos ano após ano. E é que muitos, ao querer explicar o que é o Caminho de Santiago, respondem que “é preciso fazê-lo, não se pode explicar com palavras”.
E quanto àquela pequena minoria que não o recomendaria? Apenas 5% deram classificações baixas (1 ou 2 sobre 5). Ao revisar seus comentários, em muitos casos as razões não foram pelo Caminho em si, mas por circunstâncias pessoais ou expectativas não atendidas. Alguns mencionaram problemas organizacionais, outros que “nem todos encontrarão a transformação, depende do que se está buscando”. De fato, o Caminho não faz milagres automáticos: cada um obtém conforme sua atitude. No entanto, esses casos são excepcionais em relação ao consenso geral.
No final, os números confirmam algo que se percebe no ambiente peregrino: o Caminho de Santiago é uma fonte de experiências positivas para a enorme maioria. Transformador ou não, religioso ou não, duro ou relaxante… cada um vive à sua maneira, mas quase todos terminam contentes e agradecidos pelo que viveram.

O Caminho começa ao acabar o Caminho
No final do Caminho: marcas indeléveis
“No final do caminho, um guarda no coração o que viveu”. Esta frase, que poderia estar esculpida em madeira em algum albergue, resume o que tantos peregrinos expressaram na pesquisa. O Caminho de Santiago deixa marca. Cada bolha, cada amanhecer na montanha, cada conversa à mesa, cada chegada a uma aldeia com a igreja tocando os sinos… são vivências que transformam as pessoas de formas sutis, mas profundas.
Os dados coletados nos pintam um panorama claro: as pessoas iniciam o Caminho movidas por anseios muito humanos –aventura, desconexão, desafio, fé– e quase todos retornam com essas expectativas cumpridas e superadas. O Caminho é paisagem e é gente: oferece a beleza da natureza e a riqueza das pessoas. É exercício para o corpo e descanso para a mente. É desafio e ao mesmo tempo terapia. Por isso, tantos o recomendam com entusiasmo, e por isso tantos repetem a peregrinação em busca de reviver essa magia.
De forma coloquial, um peregrino poderia resumir assim: “você vem buscando um caminho e encontra muito mais”. Os números da nossa pesquisa respaldam essa afirmação com folga. Quase todos encontraram muito mais do que uma viagem: encontraram amizade, encontraram paz, encontraram a si mesmos. E é esse boca a boca, essa cadeia de vivências positivas, que mantém vivo o espírito jacobeu século após século.

… e Boa Vida
Assim, se você ainda não fez o Caminho de Santiago, as vozes desses milhares de peregrinos lhe dirão para considerar, e nós o convidamos a fazê-lo, pelo menos, uma vez na vida. Não importa a idade que você tenha, nem se é crente ou aventureiro, nem quantos quilômetros está disposto a andar. O Caminho oferece algo para cada um. E se você já o fez, com certeza entende bem do que falam estas linhas – provavelmente você concorda ao lembrar de sua própria experiência inesquecível. Como diz o velho ditado, “o Caminho se faz ao andar”, e milhares de pessoas confirmam que esse andar vale a pena. Santiago o espera de braços abertos, mas o que realmente importa é tudo o que acontece antes de chegar ao destino.