Camino Português da Vía de la Plata: um Caminho transfronteiriço por descobrir

07 novembro, 2025

O Caminho Português da Vía de la Plata destaca pela sua diversidade paisagística, património histórico e carácter transfronteiriço. Embora a sua sinalização e infraestrutura sejam irregulares, oferece uma experiência autêntica, pouco massificada e cheia de cultura, natureza e espiritualidade.

Camino Portugués de la Vía de la Plata

O Caminho Português da Vía de la Plata é uma rota do Caminho de Santiago que conecta a cidade de Zamora com o norte de Portugal para, posteriormente, unir-se ao Caminho Sanabrés na localidade galega de Verín e continuar até Santiago de Compostela. Ao contrário das rotas portuguesas mais conhecidas, como o Caminho Português ou o Caminho Português da Costa, que percorrem o país luso de sul a norte, este itinerário adentra-se na histórica região de Trás-os-Montes, com um traçado em eixo sudeste-noroeste. Ao longo do tempo, recebeu nomes alternativos como Caminho de Santiago Mozárabe Português, Caminho Zamorano-Português, Caminho de Bragança e até mesmo Caminho de Santiago Alistano.

Catedral de Zamora Catedral de Zamora

Origem e história

O Caminho Português da Vía de la Plata tem suas raízes em antigas vias medievais que uniam Zamora com Trás-os-Montes, transitadas por carreteiros e peregrinos desde os primeiros séculos do culto jacobeu. Durante a Idade Média, seu traçado foi um importante corredor de intercâmbio cultural, como evidenciam as pontes, hospitais e templos que ainda se conservam. A rota sofreu o impacto da fronteira política após a independência de Portugal em 1143 e, mais tarde, um longo período de abandono durante os regimes de Salazar e Franco, que restringiram as passagens fronteiriças. Este isolamento explica sua condição atual de caminho pouco conhecido.

A partir do século XXI, começou um processo de recuperação e sinalização impulsionado pela Fundação Ramos de Castro, a Xunta de Galicia e associações locais. Destaca a ação comunitária de Soutochao (2009), que reabriu e marcou o trecho entre Vinhais e Verín, contribuindo decisivamente para resgatar do esquecimento este itinerário histórico.

Albergue de peregrinos de Zamora Albergue de peregrinos de Zamora

Itinerário e etapas principais

A distância total de Zamora até Santiago de Compostela é de quase 400 quilômetros, distribuídos em pouco mais de 200 kmaté Verín e, a partir daí, outros 180 km pelo Caminho Sanabrês. A seguir, descrevem-se as principais 8 etapas do percurso, de Zamora até a ligação com o Caminho Sanabrês em Verín.

  • Etapa 1: Zamora – Almendra (c. 24 km): Trecho urbano e de transição até a comarca de Aliste, passando por La Hiniesta e Valdeperdices. Albergue em Almendra.
  • Etapa 2: Almendra – Fonfría (c. 33 km): Rota por Muelas del Pan, Ricobayo e Cerezal de Aliste. Sinalização confusa em Monte de Víboras. Fonfría conta com albergue básico sem cozinha.
  • Etapa 3: Fonfría – Alcañices (c. 22 km): Etapa rural por Fornillos, Ceadea, Arcillera e Vivinera. Alcañices dispõe de serviços completos e albergue com hospitalero.
  • Etapa 4: Alcañices – Quintanilha (c. 26 km): Trecho de transição para Portugal. Atravessa o rio Maçãs por uma ponte antiga. Em Quintanilha, albergue Casa do Peregrino com cozinha e chuveiros.
  • Etapa 5: Quintanilha – Bragança (c. 25 km): Caminho com sinalização escassa. Recomendado seguir por Palacios, S. Julião e Gimonde para evitar desvios. Em Bragança, alojamento na Pousada da Juventude e no quartel de bombeiros.
  • Etapa 6: Bragança – Vinhais (c. 29 km): Trecho montanhoso e exigente, atravessando Portela, Castrelos, Soeira e cruzando o rio Tuela por uma ponte medieval. Em Vinhais, alojamento no parque de bombeiros.
  • Etapa 7: Vinhais – Segirei (c. 24 km): Etapa com forte desnível, cruzando os povoados de Soutelo, Aboa, Candedo e Edral (albergue benéfico). Sinalização fraca; muito recomendável levar GPS.
  • Etapa 8: Segirei – Verín (c. 25 km): Ingresso na Galícia por Soutochao, passando por Lamardeite e Vilardevós. A partir de Verín, o peregrino pode continuar em direção a Laza ou pela rota alternativa em direção a Xinzo de Limia, Allariz e Ourense, e a partir daí, em direção a Santiago de Compostela.

Mapa del Camino Portugués de la Vía de la Plata Mapa do Caminho Português da Vía de la Plata

A Compostela e as conexões do Caminho

Os peregrinos que completam o Caminho Português da Vía de la Plata podem obter a Compostela ao chegarem a Santiago de Compostela. Embora este itinerário não figure entre as rotas oficialmente reconhecidas pelo Escritório do Peregrino, o fato de conectar com o Caminho Sanabrés em Verín permite cumprir o requisito de percorrer pelo menos os últimos 100 quilômetros por uma rota oficial.

Este caminho atua como um vínculo natural entre a Vía de la Plata e o Caminho Sanabrés, oferecendo uma alternativa transfronteiriça ao percurso clássico. Além disso, em Verín também conflui com o Caminho Português Interior, proveniente de Viseu, o que torna este trecho um corredor jacobeu de grande valor cultural e espiritual, unindo rotas históricas da Espanha e Portugal sob o mesmo destino comum: Santiago de Compostela.

Señalización en el Camino Portugués de la Vía de la Plata Preste atenção à sinalização, que existe

Patrimônio e paisagem: uma viagem pela diversidade ibérica

O Caminho Português da Vía de la Plata combina a sobriedade castelhana com a exuberância transmontana e a frescura galega, uma vez que passa, da província de Zamora, da Espanha para Portugal e, em seguida, retorna à Espanha, mas pela província de Ourense, já na Galícia. Desde os campos cerealistas de Zamora, a rota adentra-se no norte de Portugal, atravessando as montanhas e vales do Parque Natural de Montesinho, onde abundam os castanheiros e carvalhos centenários. Finalmente, já na Galícia, desce em direção ao fértil vale do Tâmega, onde se cultiva a uva que dá origem aos vinhos com denominação de origem Monterrei, oferecendo panorâmicas de grande beleza natural.

Um tesouro visigodo

Um dos monumentos mais emblemáticos do percurso é a igreja visigoda de San Pedro de la Nave (século VII), considerada por alguns historiadores como um dos primeiros albergues de peregrinos do mundo. Esta joia arquitetônica foi originalmente erguida às margens do rio Esla, mas a construção da barragem de Ricobayo em 1930 ameaçou submergi-la. Para preservá-la, foi declarada Monumento Nacional e trasladada pedra a pedra para sua localização atual em El Campillo.

O caminho, além de San Pedro de la Nave, conserva um patrimônio notável, onde se destacam os castelos de Bragança, Alba e Monterrey ou as pontes romanas de Gimonde e Soeira.

Riachuelo Você ficará agradavelmente surpreso com os barragens, rios e riachuelos que pode encontrar nesta rota

Estado atual: sinalização e infraestrutura

Embora não figure entre as rotas oficialmente reconhecidas pelo Escritório do Peregrino de Santiago de Compostela, seu traçado histórico está documentado por entidades como a Federação Espanhola de Associações de Amigos do Caminho de Santiago (FEAACS) e o Instituto Geográfico Nacional (IGN). Além destes, muitas associações locais estão trabalhando arduamente para sua manutenção.

A rota apresenta sinalização heterogênea: clara em alguns trechos de Zamora, mas deficiente em parte de Portugal, onde as setas podem estar apagadas ou mal orientadas. Recomenda-se o uso de guias atualizadas da FEAACS, a cartografia do IGN e até mesmo aplicações para o Caminho de Santiago e caminhadas.

A rede de albergues é limitada, embora existam em pontos como Fonfría, Alcañices, Quintanilha, Bragança e Verín, entre outros. Também é possível encontrar outros tipos de alojamentos, como casas rurais, pensões, etc. Nos pequenos vilarejos, é possível recorrer até mesmo a casas paroquiais, e em Portugal, muitas vezes nas instalações de bombeiros. Quanto a outros serviços, como bares, restaurantes e lojas, muitas paradas serão em localidades muito pequenas, por isso o planejamento das etapas, pernoites, refeições e abastecimento é essencial.

O Caminho Português da Vía de la Plata é um testemunho vivo da história peninsular que ressurge após séculos de esquecimento graças ao esforço de associações e comunidades locais. Seu caráter transfronteiriço, sua riqueza patrimonial e sua variedade paisagística o tornam uma opção ideal para aqueles que buscam uma experiência autêntica e menos frequentada. Desde Viajes Camino de Santiago garantimos que esta rota oferece a grata recompensa de percorrer um caminho histórico que combina cultura, natureza e espiritualidade, reafirmando o profundo sentido da peregrinação rumo a Santiago de Compostela.

Solicite um orçamento
Viagens organizadas
Rafael Sánchez López - Kaufmännischer Leiter - Agentur Viajes Camino de Santiago