Egeria, a viajante que nos deixou um relato único
26 janeiro, 2026
Guia sobre Egeria, a viajante que nos deixou um relato único do Caminho de Santiago, contando quem foi esta monja do século IV, como descreveu suas peregrinações à Terra Santa e rotas jacobeias, o que torna sua crônica especial para a história da peregrinação e por que continua a inspirar peregrinos de todo o mundo.
Imagina que hoje você vai viajar e, em vez de subir stories, escreve uma carta enorme para suas amigas contando tudo: o caminho, o que come, a quem conhece, o que te surpreende, o que te emociona… Pois foi isso que Egeria fez há centenas de anos, nos primórdios da Idade Média. Egeria (também citada em fontes como Etheria ou Aetheria) foi uma mulher cristã do Império Romano que deixou por escrito um relato de sua peregrinação à Terra Santa no século IV. Seu texto é conhecido como Itinerarium Egeriae ou Peregrinatio e, embora tenha chegado até nós incompleto, é uma joia: está escrito em primeira pessoa, com os olhos de uma viajante real, daquelas que observam, perguntam e anotam.
De onde ela era? Aqui vem o primeiro "olho": não podemos afirmar isso com 100% de certeza. Muitas vezes ela é apresentada como hispano-romana e defende-se uma origem na antiga Gallaecia (noroeste da Península), mas há debate acadêmico sobre sua identidade e procedência. O que está claro é que seu relato é um dos testemunhos mais antigos e valiosos de uma viajante cristã contando sua experiência de forma detalhada. E um detalhe precioso: o texto parece dirigido a um grupo de mulheres "em casa", uma espécie de "círculo" de amigas ou companheiras espirituais, a quem Egeria chama com fórmulas de carinho típicas da época. Ou seja: ela viaja… mas escreve para compartilhar.
Egeria escreveu seu relato durante sua viagem
Uma viagem enorme de sandálias: o que percorreu (e como se movia uma peregrina)
Quando lemos "peregrinação" hoje pensamos em mochilas, botas e carimbos. Egeria, por outro lado, viajou em um mundo sem Google Maps, sem reservas online e sem "me manda a localização". E mesmo assim, lançou-se a uma aventura gigantesca. Sua rota (segundo o que foi conservado do texto) passa por lugares que hoje nos soam a livro de história e, ao mesmo tempo, a filme épico: Monte Sinai, Jerusalém, o Monte Nebo, a zona do Mar da Galileia… ela até menciona paradas pelo que hoje seria parte da Síria e Turquia.
Além disso, não foi um passeio rápido de "vou e volto". Egeria chegou a passar cerca de três anos em Jerusalém, usando a cidade como base para fazer excursões a distintos lugares sagrados. E como se viajava então? Com muita logística humana: rotas romanas, escoltas em algumas zonas, hospícios, comunidades cristãs que acolhiam peregrinos… e, acima de tudo, com paciência. Muita. Aquele tipo de paciência que te faz pensar: "ok… se ela conseguiu cruzar meio mundo 'a palo seco', eu posso subir essa ladeira do Caminho sem drama".
Aqui também se encaixa algo muito "de viagem": às vezes a viagem não é decidida tanto pelo "onde" quanto pelo "com quem", porque a companhia muda a experiência completamente. Egeria, ao seu estilo, também deixa claro que não viaja como um robô: conversa, pergunta, se maravilha, se apoia em pessoas. Uma viagem é um mapa… mas também é um monte de encontros.
Egeria tinha o hábito de visitar eremitas e anacoretas
O "diário" que não é diário: o que escreveu e por que cativa tanto
Embora frequentemente seja chamado de "diário", o que Egeria escreveu se assemelha mais a uma crônica viajante em forma de carta, contada de dentro. E isso é o que a torna tão moderna: não soa como um documento frio, mas como alguém que está te dizendo: "Você não sabe o que vi hoje!"
Na primeira parte conservada (a parte de "rota"), Egeria descreve trajetos e visitas a lugares que ela identifica com histórias bíblicas. Não é apenas "aqui há uma montanha": é "aqui aconteceu isso", "aqui se lembra aquilo", "aqui nos contaram tal tradição". E então vem uma das partes mais famosas e valiosas: suas descrições da liturgia em Jerusalém, especialmente celebrações como a Semana Santa e a Páscoa. Por que é importante? Porque nos conta como essas cerimônias eram vividas no século IV, com detalhes de horários, percursos, cantos e costumes. É como encontrar um vídeo antigo… mas escrito.
O divertido é que, embora Egeria fale de coisas religiosas, ela o faz com um olhar super "de viajante": observa como a cidade funciona, como as pessoas se organizam, o que fazem a cada momento. Não está escrevendo uma tese: está contando uma experiência. E isso, para os historiadores, é ouro. Um dos ingredientes que fazem uma história viajar bem (no papel ou na tela) é essa ideia de lembrar por que você está contando o que conta, o que o moveu a começar. Egeria parece escrever exatamente a partir daí: da emoção de estar vivendo algo que deseja compartilhar.
Egeria caminhando escoltada por soldados romanos, o que nos faz pensar que era uma mulher de classe alta
Como sobreviveu sua história? O manuscrito perdido, a descoberta e o "Eureka!" tardio
Egeria escreveu no século IV, mas seu texto não nos chegou em um original guardado em uma caixa com laço. Nada disso. O que se conserva do Itinerarium chegou até nós graças a uma cópia medieval: o chamado Codex Aretinus, um manuscrito do século XI (copiado no entorno de Monte Cassino, segundo a tradição de estudo).
Em 1884, um estudioso italiano chamado Gian Francesco Gamurrini encontrou esse códice em uma biblioteca de Arezzo (Itália). Ou seja, durante séculos o texto esteve ali, quietinho, esperando que alguém o reconhecesse. Está completo? Não. Faltam o início e o final, e há lacunas em várias partes. Mas mesmo assim, o que resta é suficiente para entender a voz de Egeria e a dimensão de sua viagem.
E quanto ao nome? Também é interessante: como o manuscrito conservado não vinha com uma "capa" clara dizendo "Olá, sou Egeria", durante um tempo houve confusão. Parte da identificação se relacionou com uma carta posterior (atribuída a Valerio do Bierzo) que menciona uma peregrina, e por isso aparecem variantes do nome segundo manuscritos. Resultado: hoje se fala de Egeria, Etheria ou Aetheria… e possivelmente se referem à mesma pessoa.
Por que a viagem de Egeria é um marco na história
A viagem de Egeria não é apenas uma aventura antiga: é um autêntico marco histórico. Seu relato, o Itinerarium Egeriae, é um dos testemunhos de viagem mais antigos que conservamos escritos por uma pessoa de Hispania, e além disso, por uma mulher. E isso o torna algo raríssimo e valiosíssimo: uma voz feminina do século IV contando em primeira pessoa o que vê, o que vive e o que sente enquanto percorre o mundo.
Egeria deixa algo muito próximo: o ponto de vista de uma viajante real. Descreve caminhos, etapas, paradas, tradições locais e celebrações religiosas com um nível de detalhe que hoje nos permite vislumbrar como era peregrinar no Império Romano tardio. Graças a ela sabemos como se viajava, como se organizavam as peregrinações e como se viviam os grandes lugares sagrados naquela época.
Egeria descreve muito bem a liturgia cristã de sua época nos lugares que visitou
E aqui vem um dado curioso para colocar em perspectiva: embora hoje associemos a palavra "peregrinação" ao Caminho de Santiago, Egeria não fez o Caminho… simplesmente porque ainda não existia! Sua peregrinação foi à Terra Santa e outros lugares santos do Oriente cristão. De fato, faltavam quase 500 anos para que nascesse o Caminho de Santiago tal como o conhecemos, quando começaria a grande história jacobeia na Galícia.
Por isso Egeria é tão importante: porque nos deixou séculos antes de existir Compostela como destino peregrino, uma prova viva de que já havia pessoas caminhando com sentido, viajando para buscar algo mais do que um lugar. E o melhor é que alguém teve a brilhante ideia de contar isso por escrito, um marco total na literatura de viagens. Graças a ela, hoje não apenas imaginamos como era aquele mundo: o vemos com os olhos de uma viajante.
Há pessoas que caminham para chegar a um lugar. E há pessoas que caminham para contar isso. Egeria fez as duas coisas. E, por sorte, ainda podemos lê-la (mesmo que seja em pedaços) e sorrir pensando: a primeira grande viajante não precisou de filtros. Apenas olhos, pernas… e vontade de contar isso às suas amigas.