O Códice Calixtino, o primeiro Guia do Caminho de Santiago da História
01 março, 2026
O Códice Calixtino, manuscrito do século XII conservado na Catedral de Santiago, é fundamental para compreender o Caminho medieval. Destaca pela sua guia de peregrinos, pelo seu valor histórico e cultural, e pelo famoso roubo sofrido em 2011.
Ao falar sobre o Caminho de Santiago e sua história, é indispensável mencionar o Código Calixtino, uma janela para o Caminho de Santiago e para a rica cultura jacobeia na Idade Média. Esta obra, que mistura milagres, história e um detalhado guia de peregrinos, deixou uma marca profunda na tradição da peregrinação. Guardado zelosamente na Catedral de Santiago, é uma peça essencial para entender o Caminho de Santiago na Idade Média. Está pronto para descobrir sua fascinante história?
O que é o Código Calixtino?
O Código Calixtino, em latim Codex Calixtinus, é um manuscrito datado nos anos centrais do século XII, de suma importância para a cultura jacobeia e, em geral, para todo o devir histórico da Baixa Idade Média. Escrito em latim, a cópia original é conservada na própria Catedral de Santiago de Compostela, embora existam várias cópias posteriores espalhadas por vários países.
Capa e contracapa do Código Calixtino
Sua redação foi impulsionada pela Igreja Compostelana na época do arcebispo Diego Gelmírez (1068 – 1140), que buscava nada mais do que afirmar a importância de Compostela como sede apostólica e centro de peregrinação: em definitiva, fazer de Santiago um importante centro da Cristandade, como eram Roma e Jerusalém.
Partes do Código Calixtino
Trata-se de um extenso texto dividido em cinco livros: textos litúrgicos relacionados com o Apóstolo Santiago, milagres a ele atribuídos, as vicissitudes da Traslatio (viagem de traslado dos restos do Apóstolo para terras galegas), a presença de Carlos Magno na Hispânia para libertar dos muçulmanos os caminhos para Compostela e o guia do peregrino da França a Santiago. Mais relatos de milagres, composições musicais e textos justificativos da obra completam este compêndio de cultura jacobeia.
Atribuído em sua totalidade a um ou talvez vários autores anônimos, no caso do Livro V, o que mais nos interessa como guia do peregrino medieval, a maioria dos especialistas concorda em apontar um autor, o monge francês Aymeric Picaud. A Igreja Compostelana relacionou historicamente a autoria ao papa cluniacense Calixto II (¿1050? – 1124), e daí o nome da obra, embora essa atribuição tenha sido feita talvez para legitimar e dar autoridade a este livro e à própria cidade de Santiago como sede apostólica. Assim, este pontífice apareceria como autor do primeiro e mais extenso livro e parte do segundo, embora se voltarmos aos especialistas, essa atribuição seria falsa.
O Códice Calixtino, o primeiro guia do Caminho de Santiago, poderia ser uma obra de vários autores
Esta obra tem sido denominada de diferentes formas, dependendo de qual exemplar estamos falando. Assim, o original, conservado na basílica compostelana, é o próprio Códice Calixtino ou Codex Calixtinus. O filólogo e escritor francês Joseph Bédier (1864-1938) cunhou o termo Liber Sancti Iacobi para se referir ao conjunto de cópias completas (ou quase completas) que se conservam espalhadas pelo mundo. Outros autores propuseram mais denominações, como por exemplo Iacobus, proposta do medievalista Manuel Cecilio Díaz e Díaz (1924-2008), em concreto para o primeiro e segundo livro, pois o códice se abre com o seguinte texto: "Ex re signatur, Iacobus liber iste uocatur" ("Justamente signado, este livro Santiago se chama"). O escritor francês Pierre David se refere ao texto, por sua vez, como Codex Compostellanus ou Liber Calixtinus.
Não se trata do texto medieval de maior valor artístico, mas suas miniaturas oferecem informações muito boas. Suas letras capitulares (iniciais de uma palavra no início de um parágrafo, de grande tamanho e rica decoração e colorido) são o mais destacado em termos de estética do códice. Segundo os pesquisadores, teriam chegado a Compostela da França diversos teólogos, copistas, escritores, poetas e demais artistas por iniciativa do arcebispo Gelmírez.
Imagens ilustradas do Código Calixtino
Por que é tão importante o Código Calixtino?
A nós nos interessa, especialmente, o Livro V ou a conhecida como guia de peregrinos, uma autêntica guia turística sobre o Caminho de Santiago Francês. Este Liber peregrinationis, composto de uma introdução e onze capítulos, é uma detalhada e precisa guia que descreve as distintas vias francesas de acesso ao Caminho Francês na Espanha, e a própria rota francesa em nossa península.
Assim, fala-se dos povos do caminho, suas igrejas e construções, a qualidade das águas, rios e terras, as relíquias que vão sendo encontradas, etc. Inclusive, cita e homenageia a todos aqueles que trabalharam na construção e manutenção de infraestruturas do caminho. Não tem desperdício o capítulo VII, onde descreve, entre outras coisas, as gentes que habitam nas localidades do caminho: aos galegos, por exemplo, os qualifica de "iracundos e muito litigiosos".
Se seu autor ou autores vivessem hoje, com certeza seriam dignos candidatos a receber o Prêmio Nobel de Literatura. De fato, este monumento literário foi escolhido pela UNESCO como "Registro da Memória do Mundo", dada sua importância histórica.
O roubo do Código Calixtino
Tal é o seu valor, que no dia 5 de julho de 2011, o medievalista do Arquivo da Catedral de Santiago descobriu que a obra não estava em seu cofre. Avisada a Polícia, iniciou-se uma investigação que, um ano depois, deu seus frutos: o códice apareceu envolto em um pano, e no meio de lixo, dentro da garagem de José Manuel Fernández Castiñeiras, eletricista que trabalhou durante 25 anos na manutenção da Catedral de Santiago e tinha acesso ao livro. Por roubo do Códice foi condenado a 8 anos e 2 meses de prisão, embora tenha sido libertado em 2019 por razões médicas.
O museu da Catedral de Santiago
Publicado em 2016 pela Alvarellos Editora, você pode conseguir um exemplar do Livro V do Códice Calixtino em qualquer livraria. Desde logo, é um dos livros sobre o Caminho de Santiago que todo peregrino deveria conhecer: sua leitura, além disso, é breve e muito agradável, ¡100% recomendado! E se você se anima a fazer uma rota do Caminho de Santiago, nós podemos oferecer nossa própria guia do Caminho de Santiago do século XXI.
Comentários (1)
Ana
Viajes Camino de Santiago
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